14
Dez
2011

Diário de Bordo – Expedição 2011: Belterra

Diário de Bordo



Dia 13 de novembro

Depois de viajar 3.200km, aterrisamos hoje às 16h em Santarém, no Pará. Seguimos de ônibus, e depois de uma hora de trajeto, chegamos em Belterra. Após descarregar caminhões e organizar o alojamento, terminamos o primeiro dia na expectativa dos próximos oito! Apesar cansaço e do calor de mais de 33º C, sabemos que a expedição está apenas começando!

Dia 14 de Novembro
Hoje o dia começou cedo para nós, às 6h todos já estavam de pé. Depois de tomar café, diretores e bandeirantes seguiram para suas atividades. Os postos de já estão em funcionamento, com atendimentos médicos, odontológicos, psicológicos, fisioterapêuticos e fonoaudiológicos.

Os estudantes da ESALQ estão construindo de uma horta comunitária de plantas medicinais na sede da prefeitura. A atividade educativa conta com a ajuda e contribuição da população local, que está doando as mudas de plantas.
Hoje, a equipe de engenharia da Poli está construindo uma fossa comunitária, em oficina educativa com os agricultores e estudantes da Casa Familiar Rural. Será construída uma Fossa Séptica Modelo, que é barata, fácil de fazer e não contamina o solo e a água subterrânea, o que evita futuras doenças transmitidas pela falta de saneamento básico.
Essa foi apenas a primeira manhã da expedição, que está apendas começando. Continue acompanhando nossas novidades pele facebook, blog e twitter!


Às 14h entrevistamos o prefeito de Belterra, Geraldo Pastana, que nos contou os problemas de saúde na cidade e suas expectativas sobre o projeto. Apesar do sistema de saúde  ter sido ampliado nos últimos anos, ele ainda é insuficiente para atender a população de 19 mil habitantes. Hoje, Belterra conta com o atendimento de apenas oito médicos. Segundo o prefeito, a escassez de profissionais da área de saúde acontece porque os médicos preferem ir para as grandes cidades onde podem receber maiores salários. “Nós não temos condições de pagar R$15 mil para um médico, então eles preferem ir para Santarém e Belém”, comentou ele.

Aguardem! Divulgaremos mais tarde a matéria completa!

22
Nov
2011

Bandeira Científica chega a Belterra, no Pará, em dezembro

por Marcelo Pellegrini e Natália Natarelli


A Bandeira Científica é um projeto feito por alunos da Universidade de São Paulo (USP) que leva, todo ano, cerca de 170 estudantes para prestar atendimento médico e realizar atividades educativas com a população de cidades carentes. Em 2011, Belterra, no Pará, foi escolhida para sediar a expedição, que ocorrerá de 13 a 21 de dezembro. Serão três postos de atendimento no Centro e nas comunidades de Maguari, Piquiatuba, Corpus Christi e São Jorge. Os estudantes também passarão pelas comunidades ribeirinhas.

O atendimento médico começará com uma triagem de Clínica Geral e, a partir das queixas, os pacientes serão encaminhados para especialidades como Oftalmologia, Pediatria, Ginecologia, Otorrinolaringologia, entre outras. Além da medicina, áreas como Odontologia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Psicologia, Nutrição também prestarão atendimento e farão atividades educativas com a população.

Foco no planejamento

A Bandeira Científica ainda conta com faculdades que desenvolvem projetos voltados para infraestrutura e planejamento. Os alunos da Escola Politécnica da USP planejam atividades de mapeamento do saneamento básico e da rede de esgoto, abastecimento de água e compostagem. Enquanto a Escola Superior de Agricultura trabalha com o manejo da terra e ações ligadas à agricultura em comunidades rurais.

Já a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade vai trabalhar com associações comunitárias e em projetos de geração de renda. O objetivo é melhorar a gestão e a administração das organizações locais.

Atividades Educativas

Foram planejadas para atuar em grupos estratégicos da comunidade: Agentes Comunitários de Saúde (ACS); Crianças, Jovens e Pais; e Gestantes.

Com os profissionais de Saúde serão abordados temas como: orientações sobre saúde bucal, doenças mentais e discussão sobre a profissão e os desafios do dia-a-dia.

Já com as crianças e jovens, as atividades serão voltadas para o esclarecimento sobre violência doméstica e como promover o diálogo entre pais e filhos. Especificamente para os jovens, serão discutidos temas como uso de álcool e drogas, gravidez na adolescência, planejamento familiar e educação financeira.

Para as gestantes, o projeto realizará o “Dia da Grávida” para fornecer orientações sobre o pré-natal, realização de ultrassom, orientação sobre saúde bucal, planejamento familiar e financeiro. O objetivo também é estimular a conversa e troca de experiência entre as gestantes, no intuito de perceber e abordar aflições e dúvidas comuns.

Além desses eixos, haverá atividades relacionadas à Agenda 21, à organização de cooperativas e com o Conselho Tutelar de Belterra.

4
Ago
2011

Bandeira Científica ganha prêmio Top Social 2011

O Bandeira Científica, junto com a sua parceira Sanofi Aventis , recebeu, nesta terça-feira (2), o prêmio Top Social da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB). Essa iniciativa de reconhecer organizações com iniciativas voltadas ao desenvolvimento social ocorre desde 1999 e, nessa edição, outras seis ações também foram premiadas.

Paulo Mota, diretor acadêmico da Fisioterapia, contou as origens do projeto e enfatizou o crescimento do Bandeira ao longo dos anos

Os Diretores Acadêmicos, Paulo Mota, da Fisioterapia, e Mardem Feitosa, de Administração, foram os responsáveis por apresentar o Bandeira Científica junto com Sérgio Bialski, gerente de comunicação interna da Sanofi. A apresentação esclareceu à plateia os principais pontos da parceria e a forma de atuação de ambas as instituições na expedição. “O prêmio ADVB prova o sucesso da parceira entre a Sanofi e a USP. A Sanofi desde o início do patrocínio ao Bandeira Científica acreditou piamente no projeto. Um projeto multidisciplinar, que tem a característica de poder ser reproduzido em outras universidades, instituições de saúde ou empresas que queiram aplicá-lo. E também um projeto que prima pelo fato de ser sustentável, ou seja, existe um compromisso de longo prazo que está aliado a todas as ações sociais da nossa empresa”, disse Bialski.

Os diretores do Bandeira e Sérgio Bialski, da Sanofi, com o prêmio Top Social; A Sanofi também ganhou pela ação "Comida que Cuida"


Sérgio Bialski, da Sanofi: "é um privilégio participar do Bandeira Científica"

Muito além do patrocínio

O representante da empresa farmacêutica Sanofi enfatizou que a relação com o Bandeira Científica não se resume ao patrocínio. O engajamento dos funcionários da empresa no projeto vem crescendo e, atualmente, oito pessoas disputam cada uma das vagas na expedição que ocorre sempre em dezembro. Os voluntários atuam em várias frentes: aplicação de questionários socioeconômicos, atividades lúdicas com crianças para prevenção de doenças como dengue, coleta de sangue e também como “repórteres”, contando para quem não, através das mídias sociais, tudo o que acontece na cidade.

O próprio Bialski é um entusiasta do Bandeira Científica e sempre viaja com o projeto em dezembro. “Eu cuido da parte de comunicação interna e a minha missão é fazer com que o projeto seja conhecido pelos funcionários e fazer com que eles se motivem e participem do Bandeira Científica. Eu, obviamente, tenho que dar o exemplo. Participo desde o início e, para mim, é um verdadeiro privilégio participar de todas as edições, desde que a Sanofi começou essa parceria”, conta.

por Natália Natarelli

Mardem Feitosa apresentando o Bandeira Científica no prêmio Top Social

21
Dez
2010

Após passado tumultuado, Rádio Comunitária de Inhambupe segue firme e sozinha

Eram dez horas da manhã quando Rafael Souza Nascimento terminou seu programa dominical e recebeu a equipe de comunicação da Bandeira Científica para uma conversa em sua sala. Rafael é um dos fundadores da rádio que com mais de 13 anos de vida já passou por muitos percalços até se consolidar como único veículo de comunicação da cidade de Inhambupe.

Antes localizada em um prédio da Igreja Católica, a rádio tem sua origem vinculada à atuação de movimentos religiosos e sociais na cidade. “A ideia surge a partir de uma necessidade sentida no decorrer da história do movimento social. Começamos com a ajuda da associação que dá suporte à emissora, a Associação Beneficente Cultural e Comunitária de Inhambupe(ABCI), depois passamos a viabilizar instrumentos para as ações na cidade, e então pensamos em uma rádio comunitária”, conta Rafael.

Até a obtenção de sua outorga de funcionamento, a rádio sofreu duas intervenções da polícia federal. Uma liminar judiciária permitiu a reabertura após a primeira intervenção policial; no entanto, foi da segunda vez que a rádio sofreu danos maiores. “Além de tirar a rádio do ar, o transmissor foi levado e fizeram ameaças para que a gente parasse com a nossa proposta. Mas então saiu a outorga e; agora temos outras questões, como sustentabilidade e manutenção”, afirma Rafael.

Assim como muitas rádios comunitárias, desde o início de suas atividades a rádio focou sua linha editorial na participação da comunidade e na abordagem de questões de interesse do município. “Nosso objetivo é uma comunicação não exclusivamente linear, mas que ajude a pensar, a discutir, a caminhar e apontar saídas. Eu vejo que trabalhar na rádio é uma prática importante para pontuar questões, melhorar a qualidade de vida e o acesso à informação, para a mudança de mentalidade. Sobretudo, acredito que a comunicação tenha essa importância”, ressalta Rafael.

O financiamento das atividades da rádio é feito principalmente através do apoio cultural de comerciantes. Além disso, existe a coleta de dinheiro por parte de membros da ABCI e da comunidade através de rifas. A equipe da rádio também ajuda em eventuais custos. Ao todo, são 12 colaboradores na rádio.

Jovem colaborador

Rafael Júnior, apresentador do programa Tarde de Agito, no ar todas as tardes de sábado, acabou de se formar no Ensino Médio e é colaborador da rádio há três anos. O começo, conta Rafael, foi bastante inesperado e difícil: “um colega foi convidado para substituir outro rapaz no Tarde de Agito. Nessa época não havia programa em dupla aqui na cidade, só programas individuais, então ele me convidou e eu disse ‘bora’, sem nunca ter entrado em uma rádio antes”.

O programa é voltado para o público jovem e privilegia músicas internacionais, remixadas e de gêneros como o hip hop. De acordo com Rafael, mesmo depois de algum tempo trabalhando na rádio, a responsabilidade não diminui. “Uma rádio é complicada, são 15, 17 mil pessoas que vão ouvir o que você fala na rádio. Tudo tem que ser medido”, afirma.

Por Tulio Bucchioni

Equipe de comunicação do Bandeira Científica

21
Dez
2010

A anemia, a dor e o conhecimento

A tarde se iniciava em Volta de Cima quando Altair Lira e alguns membros da bandeira chegaram ao povoado deserto. O céu um pouco nublado e o clima abafado anunciando chuva somavam-se ao vazio das poucas ruas e silêncio das casas. Sábado é dia de feira no centro de Inhambupe e muitos moradores da zona rural se deslocam no transporte disponibilizado pela prefeitura (duas vezes por semana) para comprar produtos variados na cidade.

Volta de Cima não fica muito distante do centro, mas as duas localidades são ligadas apenas por estradas de terra, o que dificulta o transporte. No caminho, pastos para pecuária são alternados com casas simples e isoladas. Segundo dados disponibilizados pela Secretária de Saúde do Município, a região possui certo número de casos de crianças e adultos com doença falciforme. Altair foi levado para lá com o intuito de esclarecer pacientes e Agentes Comunitários sobre o problema.

O deslocamento não facilitou o encontro, por conta da falta de divulgação. Os dois agentes comunitários que participaram da atividade foram chamados em suas casas poucos minutos antes do início. Altair continuava surpreendentemente animado, em oposição à quietude geral de Volta de Cima. Segundo ele, aquelas poucas pessoas ouviriam e continuariam a divulgar o que ele vinha falar.

Coordenador da Associação Baiana das Pessoas com Doença Falciforme, a Abadfal, ele luta há 10 anos por um maior cuidado dos pacientes que sofrem desse mal. A anemia falciforme é uma doença genética que atinge em sua maioria a população negra, pois teve origens africanas. Por essa razão, seu cuidado é negligenciado no Brasil. Esse fato já foi admitido não só por militantes do movimento negro como também médicos e cientistas que denunciam o racismo institucionalizado.

A doença falciforme é um mal crônico. Não existe cura, mas o tratamento pode reduzir em muito sua mortalidade. Altair relaciona diretamente o modo de vida da criança com sua resistência a doença. Condições sociais afetam seu controle. O problema é que, por conta da desigualdade brasileira, a população negra, mais afetada, é a que possui justamente menos recursos. Sem cuidado, a anemia falciforme mata em cerca de 8 anos. Com tratamento, a pessoa pode viver em média 40 anos.

Altair não é médico. Ele é pai e isso as vezes significa muita coisa. Em 1999, sua filha foi a primeira baiana diagnosticada com a doença pelo teste do pezinho. Depois disso, ele e sua esposa passaram a dedicar grande parte de seu tempo na luta contra a anemia e pela melhoria da atenção às vítimas. “Eu não sabia onde ia chegar mas a gente acreditou que somente sendo muitos podemos mudar a história de muitos”, conta. Seguiu a orientação de um colega que lhes avisou que estados onde a Associação existia, havia mais recursos para os indivíduos afetados pelo mal. Assim, ele e sua mulher fundaram a Abadfal e acabaram se envolvendo numa briga de muitos.

A Bahia possui altos índices de doença falciforme. A diferença em relação a outros estados é gritante. A cada 650 bebês nascidos, 1 deles é atingido pelo mal. Apesar dessa realidade, o estado não possui um centro de referência no tratamento. O indivíduo não sabe onde procurar atendimento e passa por diversas triagens antes de ser encaminhado para o local correto.

“A marca da doença falciforme é a dor”, define. Com um formato de foice, as hemácias (células responsáveis pelo transporte de nutrientes no sangue) dos doentes não possuem mobilidade na corrente sanguínea. Por isso, entopem veias e artérias causando derrames localizados. Por se encontrar no sangue, as consequências da modificação genética atingem o corpo inteiro. De tempos em tempos, a criança com doença falciforme sofre crises agudas de dor e necessita de internamento. Algumas medidas, como reduzir a atividade física, sobretudo no tempo quente e evitar mudanças bruscas de temperatura, diminuem a frequência desses agravamentos.

O teste do pezinho é a principal ferramenta de prevenção ao problema. Identificada desde a infância, o tratamento é facilitado. Muitos sintomas são confundidos com outras doenças e os pacientes são encaminhados para tratamentos errados. Depois de adulto, a identificação é feita através da eletro-forese de hemoglobina. O secretário de saúde se dispôs, inclusive, a realizar esse exame na população, a fim de diagnosticar casos ainda desconhecidos.

Aos poucos, o trabalho da Associação começa a ser reconhecido. Algumas vitórias foram conquistadas. Por exemplo, uma auxiliar de cozinha que sofria de crises constantes por trabalhar entre a pia e o fogão (mudança constante de temperatura). Outro fator importante é a maioria feminina na Associação. “O homem muitas vezes não dá conta de cuidar de um filho com essa doença”, diz ele.

Altair despediu-se com carinho e partiu em uma viagem de algumas horas para Salvador. Os Agentes de Saúde permanecem, com a função de disseminar o conteúdo trazido por Altair para as famílias que lidam diariamente com a doença e a dor.

Equipe de Comunicação

Bandeira Científica

Por Clara Roman

21
Dez
2010

Notas

Bandeira participa de mesa redonda em rádio local
Neste último domingo, ao meio dia baiano, a Bandeira Científica participou de uma mesa redonda na Rádio Comunitária de Inhambupe. O evento foi organizado pela equipe de comunicação do projeto em parceria com a rádio. Houve uma avaliação das atividades realizadas até agora pela Bandeira em Inhambupe, seguida por uma discussão sobre a continuidade das ações iniciadas pelo projeto. Ouvintes da rádio aproveitaram para enviar perguntas. Ao todo, quatro alunos e um morador da cidade compuseram a mesa: José Baptista, líder do assentamento de Moita Redonda, Henrique Pinesi, estudante de medicina na USP, Mariana Rivera, estudante de psicologia na USP, Maryana Dias, estudante de medicina na UFBA e Tulio Bucchioni, estudante de jornalismo na USP. A locução ficou por conta do radialista Mota.

  

  

  

  

  

  

 

 

 

 

 

Eduardo postou sobre o evento em seu blog: http://eduhistoriador.blogspot.com/ 

Atendimento oftalmológico gera fila de quarteirões
No último sábado, dia 18, uma fila de mais de dois quarteirões tomou a praça José de Anchieta, centro de Inhambupe. Devido à habitual vinda de moradores da zona rural da cidade aos sábados, dia de feira em Inhambupe, a procura pelo atendimento oftalmológico oferecido pela Bandeira Científica ultrapassou as expectativas tanto de moradores da cidade como de bandeirantes. Debaixo de uma garoa fina, homens, mulheres, idosos e crianças de colo aguardavam a abertura dos portões – alguns desde muito antes do começo dos atendimentos, marcado para às 7h da manhã. Seu Jadival dos Santos, que chegou ao posto de atendimento às 3h30 da manhã, parecia não se importar com o horário em que acordara: “o atendimento chegou em uma boa hora. Eu mesmo precisaria ir para outra cidade para ir ao ‘oftalmo’ e agora posso ficar aqui”, afirmou.

 

 

Educação Ambiental é tema de atividades em Lagoa Branca
Cerca de 70 crianças participaram de uma atividade conjunta sobre Educação Ambiental com alunos da Escola Politécnica (Poli) e da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiróz (Esalq)  em Lagoa Branca, zona rural de Inhambupe. Os estudantes encenaram para as crianças a história de Pedrinho, um garoto com muito sono, dor nas unhas e nos cabelos, afetado por verminoses e com hábitos não muito higiênicos. Perguntas como “só tomar banho e lavar as mãos antes de comer é suficiente?” foram lançadas ao público infantil, que respondia aos gritos. Além disso, aconteceram atividades sobre reciclagem e poluição de rios. “O nosso papel é informar sobre a importância da água na vida das pessoas. Já que a água pode interferir trazendo doenças, então a gente tenta correlacionar a água com o teatrinho e a educação ambiental”, afirma Renato Dallora, estudante de engenharia civil. 

Por Tulio Bucchioni
Fotos
Manoela Meyer
Equipe de Comunicação do Bandeira Científica

18
Dez
2010

Visitas Domiciliares: dificuldades na zona rural

Localizada na zona rural de Inhambupe, a vila de Saquinho possui um sistema de saúde deficiente. Nos últimos tempos, a situação se tornou ainda pior. Isso porque o único posto de saúde da região foi fechado há pouco mais de uma semana. Em seus arredores, muitas famílias tiveram que se adaptar com a carência de recursos médicos, descobrindo outras formas de cuidar de seus doentes ou gastando tempo e dinheiro para se tratar no centro do município, em Salvador ou em Alagoinhas.

Muitas casas são distantes até mesmo do centro do vilarejo, o que dificulta o acesso para pessoas com locomoção prejudicada. É o caso da família de Mara*, 24, e Agenor*, 26. Os dois irmãos sofrem com deficiências motoras desde a infância. Geralmente, são atendidos em casa, pois não conseguem chegar ao hospital. Assim como os médicos, o projeto Bandeira Científica também optou por prestar assistência à família em seu próprio domicílio, na Visita Domiciliar que ocorreu nesta terça-feira.

Quando a equipe chegou na casa, a mãe estava ausente e os irmãos encontravam-se sob os cuidados de Damiana, que cuida deles há dois anos. “Eu venho todo dia”, conta ela, que mora em uma região próxima.  Segundo Silmara Rondon, discutidora da Fonoaudiologia, a mãe teria contribuído para o atendimento. “A gente não sabe como foi esse parto, como foi o desenvolvimento motor deles, de fala, no andar. Faltam dados”. Ela explica que a mãe poderia esclarecer detalhes sobre o histórico do problema, por conhecer intimamente o cotidiano dos pacientes desde seu nascimento. Apesar do trabalho já consolidado de Damiana, nada substitui o conhecimento da mãe.

Solicitados pelos agentes de saúde para analisar os casos mais graves, os médicos da Visita Domiciliar prestam um atendimento momentâneo, dificultado justamente por essa falta de informações e a rapidez da consulta. A situação é agravada pela falta de apoio oferecida pelo sistema de saúde da região. O contato com a comunidade se dá através dos Agentes Comunitários de Saúde, responsáveis por levantar os problemas de determinada área. “O trabalho como agente comunitário é cheio de dificuldades”, conta Domingos, agente que acompanhou as visitas dos médicos voluntários. “Agora, está pior”, diz ele, por causa do fechamento dos postos, que gerou uma sobrecarga para ele e outros profissionais. Domingos recolhe dados e passa para a Secretaria de Saúde, mas nem sempre vê resultado em sua atuação, que deveria passar antes pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS), responsáveis pela atenção primária e constante.

Mesmo admitindo a importância da atenção freqüente aos pacientes freqüentados, Domingo relata que isso não ocorre. Segundo ele, a família já se acostumou com o cuidado dos irmãos. Damiana partilha da mesma opinião. Já se adaptou a rotina, às demandas dos dois jovens sob seus cuidados. “A gente fica conversando, assistindo TV”.

Mãe solteira de quatro filhos, ela também não costuma ir ao médico. Afirma que não possui problemas de saúde. No entanto, um dos profissionais presentes na visita detectou uma irritação de pele na cuidadora, que é beneficiária de um dos programas de assistência do governo.

Enquanto seus filhos estudam no ensino público, Damiana se esforça no Topa, programa de alfabetização de adultos. Segundo ela, o problema de Mara e Agenor tem piorado. Aos cinco anos, eles caminhavam normalmente. Hoje em dia, não conseguem andar sem apoio e sofrem muitas quedas. “Faço comida, boto no prato, eles vão para a mesa comer. Ela vem derruba o prato em cima da mesa (a menina)”. Sobre os postos, Domingos conta que, da mesma forma que não foram avisados sobre seu fechamento, não sabem quando serão reabertos.

*nomes ficticios

Equipe de comunicação Bandeira Científica

Clara Roman

18
Dez
2010

Mar no sertão do Candomblé

O som daquele movimento leve, forçado pelo vento, lembrava o barulho do mar; ao redor, ao contrário, terra seca batida, um horizonte de matos e colinas, o calor de mais de 40º. Flutuando calmamente no ar, largas faixas vermelhas, brancas, amarelas e verdes alternavam-se e hipnotizavam a todos.  Não cansávamos de admirar a beleza das faixas, compostas por milhares de bandeirinhas de festa junina fixadas com barbante no teto da varanda da casa principal. Estavam completamente justapostas às centenas em cada faixa; um verdadeiro recife de corais em pleno ar.

Estávamos em um terreiro de Candomblé, a poucos minutos do centro de Inhambupe. Mal havíamos descido do ônibus e o sacerdote da casa – popularmente conhecido como Pai de Santo – já nos recepcionava com sua habitual e, mais tarde, absolutamente reconhecida por nós, abertura contagiante. Pai Uelson era católico e converteu-se ao Candomblé aos 16 anos; aos 21, já era Pai de Santo. Em Inhambupe, caso você necessite encontrar Pai Uelson, há uma grande chance de qualquer um na rua lhe indicar o endereço de sua casa, tamanha é sua popularidade.

Participávamos de uma atividade de alunos de psicologia da USP, cujo objetivo é entrevistar personalidades da cidade tidas como referência pela população, com o intuito de se pensar em políticas públicas a partir da visão dos moradores de Inhambupe. Assim como Pai Uelson havia sido indicado por diversas pessoas, ao cabo de sua entrevista seria tarefa sua indicar mais três pessoas para serem entrevistadas.

Sentamos na sala principal do terreiro, de chão de cimento, sem muitos adereços ou móveis. Cadeiras de plástico branco espalhavam-se pela sala; nas paredes, quadros de santos e algumas fotos, além de certificados. Um deles, concedido pela Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro, garantia a um tal José Uelson de Jesus o título de Sacerdote Afro. Pai Uelson sentou-se em sua cadeira revestida por diversas camadas de panos brancos rendados. Sua expressão era sempre calma e seus óculos de metal pareciam contrastar um pouco com a bata e a calça de pano alvíssimo que trajava.

Durante mais de três horas, falamos sobre história, preconceito, saúde e religião, entre outros temas. Pai Uelson contou-nos sobre a origem indígena de Inhambupe – fator que explicaria “a alta sustentabilidade e poder de decisão da cidade desde cedo” – apesar da atual predominância de afro-descendentes, expressou sua insatisfação com a discriminação existente contra negros em Inhambupe, chegando a atribuí-la a um “feudalismo e coronelismo preconceituosos”. Com relação ao sistema de saúde da cidade, Pai Uelson afirmou sua indignação com o recente fechamento de postos de saúde na cidade e afirmou ser este, na sua opinião, um caso passível de intervenção do Ministério Público.

Ao contrário do que usualmente pode-se esperar, quando o assunto moveu-se para o tema religião, a conversa fluiu de maneira absolutamente calma. Pai Uelson confirmou a existência de outros 158 terreiros de Candomblé só em Inhambupe, revelou ter participado de manifestações recentes pelo direito à liberdade religiosa no Brasil e defendeu temas normalmente espinhosos para líderes religiosos, como o uso de preservativos e a união civil homossexual – “não podemos julgar ninguém, isso[a união civil homossexual] não se discute, vem de si e o direito deve assistir”, afirmou. Sobre o aborto, apesar de não existir uma diretriz específica do Candomblé para o tema, Pai Uelson afirmou ser contrário à prática, mesmo em casos previstos na Constituição.

Ao fim da conversa, para nossa surpresa, fomos todos convidados a nos sentarmos à mesa para comer uma deliciosa torta de frango especialmente feita para nós por uma das ajudantes de Pai Uelson. Eram mais de sete horas da noite quando saímos de seu terreiro e as faixas de cores ainda moviam-se agitadas com seu barulho de mar no sertão.

Equipe de Comunicação da Bandeira Científica

Por Tulio Bucchioni

16
Dez
2010

Um tímido com um amplificador

Nelito comemora 30 anos no mês que vem. Ele é funcionário da prefeitura e anda o dia inteiro em uma bicicleta de som, apesar de ser um homem de poucas palavras. Certo dia, um conhecido bateu na porta de sua casa e disse: “tenho um trabalho para você”. E ele foi. É anunciante em bicicleta até hoje.

Gosta de andar pela cidade, percorrendo todas as ruas do centro, e já se acostumou com os gritos da caixa de som; não sente mais dor no ouvido, como sentia antes. Ele também tem outros empregos. Quando precisa, trabalha como pedreiro, fazendo reformas nas casas e quebrando chão, parede e teto, com o que tiver. Trabalhou também durante cinco anos com gado. Mas só se acostumou com o atual emprego; se sente confortável com as caixas de som alto, apesar de sua voz baixa e embolada. De vez em quando, também anuncia para vendinhas, supermercados, lojas que acabaram de abrir.

Apenas a mãe mora com ele em Inhambupe. Tem um irmão em São Paulo, a tia Pretinha e até teve um caso com a paulista Marcela. Mas é solteiro, ri-se. Sonha em ir para São Paulo, mas só iria com um emprego certo.

Diante do campo de futebol, diz que odeia o esporte. Um primo morreu com uma bolada, tentando defender um gol, explica. Além da bicicleta, também gosta de correr. Treina direto, para a maratona da prefeitura. Pedala durante a maratona para anunciar os primeiros lugares e, depois, coloca a bicicleta em um canto e corre junto com a multidão.

Equipe de Comunicação da Bandeira Científica

Por Karin Salomão

16
Dez
2010

Aluna confirma sua vontade de ser oftalmo durante a Bandeira

Isabelle Santana aguçou sua vontade de se especializar em oftalmologia durante o atendimento da Bandeira Científica. Apesar de o treinamento na área ser de apenas um período, a estudante do penúltimo ano de medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) quer voltar no dia seguinte, para absorver ainda mais. “[Os discutidores] estão deixando fazer alguns atendimentos, manejar os aparelhos e fazer os exames, é ótimo para aprender”, diz Isabelle.

Além de acompanhar o atendimento através de uma aula, ela tratou de uma triquíase, um cílio que nasce no lugar errado, raspando o olho; a triquíase pode causar úlcera de córnea ou inflamação de córnea. Além disso, o paciente também tinha presbiopia e ganhará óculos.

oftalmo

Isabelle examinando a triquíase através de um aparelho de lâmpada de fenda

“Aqui, você vê coisas que aprendeu na faculdade na prática, adianta alguns conhecimentos, aprende a lidar com problemas que não previa”, diz João Francisco, do 2º ano de medicina da USP. Ele conta que a prática, o convívio com o paciente e com outras áreas está sendo muito enriquecedor. Um paciente é atendido, às vezes, por seis diferentes áreas. O encaminhamento e acompanhamento do paciente ensinam sobre o trabalho que é realizado por outras áreas, ampliando o leque de aprendizado do aluno bandeirante.

João também atendeu na ginecologia. “Nunca tinha feito um papa Nicolau ou um exame de mama, aprendi muito”, diz. Diferente de outras áreas, na oftalmologia o aluno não atende diretamente o paciente, mas apenas acompanha o trabalho de um residente. João explica que é porque o treinamento para essa área precisa ser bem maior e mais específico.

Janaína Falabretti, administradora da área de oftalmologia da Bandeira Científica e da divisão oftalmológica da USP, diz que a demanda está sendo acima do número ideal. Ao invés dos 170 atendimentos diários, o posto está realizando mais de 200 atendimentos, chegando às vezes a quase 230.

Depois de passar por todas as etapas de exames, o paciente entra na ótica e escolhe a sua armação de óculos. O conjunto com as lentes chegará em março à população.

oftalmo

Equipe de Comunicação da Bandeira Científica

Por Karin Salomão